09/05/2023
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O QUE FOI O BOLSONARISMO
As pessoas ainda não entenderam bem o que foi o surgimento do bolsonarismo. Tem todas as características de uma revolução social, embora uma revolução para trás, reacionária. Não foi um movimento conservador e sim retrogradador.
Mas talvez tenha sido a transformação mais ampla e mais rápida de nossa história de uma população politicamente passiva (PPP) em população políticamente ativa (PPA). Ao converter uma quantidade enorme de eleitores e expectadores (PPP) em agentes políticos (PPA), o bolsonarismo produziu uma mudança profunda no país.
Desgraçadamente a ativação desses novos atores (sem qualquer mediação e educação políticas) trouxe consigo a lama que estava decantada no fundo do poço da cultura patriarcal. Preconceitos e conceitos, que estavam presentes no subsolo das consciências - e que se esperava já sepultados pela vida cívica e pela convivência democrática modernas -, também foram revivescidos.
Aí apareceram, não se sabe de onde, legiões de zumbis atacando os direitos humanos, defendendo o armamentismo popular, elogiando a ditadura militar e a tortura, pregando a exterminação de adversários (comunistas ou globalistas), reforçando antigas discriminações (de gênero, raça, etnia ou cor, credo, nacionalidade, condição física ou psíquica etc.) e levantando as bandeiras de deus (e da religião), da família tradicional (monogâmica) e da pátria (nacionalista).
Essas pessoas não foram bem convertidas intelectualmente e sim capturadas emocionalmente a partir do seu ressentimento por não serem levadas em conta para nada e por não serem reconhecidas pelo sistema político como sujeitos válidos. Entraram no movimento para "dar o troco" àqueles que sempre as desprezaram. Vingança e revanche, ódio, cólera e intolerância, alimentaram esse emocionar guerreiro que se instalou.
E vieram então com suas opiniões retrógradas - que antes só eram admitidas ou toleradas em ambientes privados, nas conversas com amigos e colegas de trabalho, nas mesas de jantar de suas casas, nos botecos e nas filas de ônibus, nas cadeiras de barbeiro e nos salões de beleza e de bilhar - poluir o espaço público. Em outras palavras, tomaram a coragem de proferir tais opiniões cruas no espaço público, desafiando os constragimentos impostos pela cultura cívica da modernidade.
Vieram sem qualquer educação política, achando que a política é uma espécie de religião ou de torcida organizada de clube, onde o principal é desqualificar e retirar a legitimidade do outro (o inimigo) para exterminá-lo.
Por isso o bolsonarismo, antes de ser uma ameaça política, foi uma ameaça social, quer dizer, à vida humana em sociedade, à aceitação do outro como um legítimo outro na convivência, à convivência amistosa e prazerosa com o diferente, à colaboração e, sobretudo, aos valores e às normas liberais do modo de vida democrático.
Mas tão extensa e profunda foi essa revolta dos desprezados (majoritariamente das camadas médias da sociedade) que pode-se dizer que a ascensão do bolsonarismo teve as características de uma revolução social molecular, uma alteração nos fluxos interativos da convivência social, ainda quando não tenha se concretizado como uma revolução política (na medida em que não conseguiu mudar o regime político).